sexta-feira, 24 de junho de 2011

Afinal…O que é “Vulnerabilidade Social”?


O conceito de vulnerabilidade foi primeiramente associado especificamente à saúde pública, no contexto de epidemia da aids, por Mann e colaboradores, principalmente a partir de 1992, quando publicou o livro: “Aids in the world”, nos Estados Unidos (Ayres, 1999).

Originado da discussão sobre Direitos Humanos, o termo inicialmente associado à defesa dos direitos de cidadania de grupos ou indivíduos fragilizados jurídica ou politicamente, passou a ser utilizado nas abordagens analíticas, teóricas, práticas e políticas voltadas à prevenção e controle da epidemia.
Na tentativa de ampliar o conceito proposto por Mann et al.[1], Ayres et al.[2], no Brasil, apontam que o modelo de vulnerabilidade está conformado por três planos interdependentes de determinação e, conseqüentemente, de apreensão da maior ou da menor vulnerabilidade do indivíduo e da coletividade. O olhar do autor busca a compreensão do comportamento pessoal ou a vulnerabilidade individual, do contexto social ou vulnerabilidade social e do programa de combate à doença, no caso a AIDS, ou vulnerabilidade programática.
O significado do termo vulnerabilidade, nesse caso, refere-se à chance de exposição das pessoas ao adoecimento, como resultante de um conjunto de aspectos que ainda que se refiram imediatamente ao indivíduo, o recoloca na perspectiva da dupla-face, ou seja, o indivíduo e sua relação com o coletivo. Explicando melhor, o indivíduo não prescinde do coletivo: há relação intrínseca entre os mesmos.
Além disso, o autor propõe que a interpretação da vulnerabilidade incorpore, necessariamente, o contexto como lócus de vulnerabilidade, o que pode acarretar maior suscetibilidade à infecção e ao adoecimento e, de modo inseparável, à maior ou menor disponibilidade de recursos de todas as ordens para a proteção das pessoas contra as enfermidades.
Segundo Ayres (1999), numa primeira tentativa de explicar a aids, doença até então desconhecida, várias classificações permeadas por preconceitos foram criadas e atribuídas às pessoas portadoras do HIV e doentes de aids. Falava-se em “grupos de risco”, referindo-se aos homossexuais, hemofílicos e usuários de drogas injetáveis. O uso desta expressão fez com que as pessoas que não se enquadrassem em algum destes grupos se sentissem imunes à doença.
Esta classificação, duramente criticada pelos grupos organizados envolvidos na prevenção da aids, passou a ser substituída por “comportamento de risco”. Este termo tampouco se mostrou adequado, pois responsabilizava apenas o indivíduo por ter adquirido a doença [3]. Assim sendo, a prevenção dependeria exclusivamente da vontade pessoal e de uma mudança voluntária de comportamento.
No entanto, com o desenvolvimento do conceito de vulnerabilidade foi possível observar que existem outros fatores que interferem e, muitas vezes, determinam a atitude e a conduta das pessoas, ampliando ou diminuindo as situações de risco. 
Entre estes fatores estão
  • O acesso ou não à informação, 
  • Escola, 
  • Serviços, 
  • Programas de saúde,
  • Condições de vida digna;
  • Entre outros ...
Yunes & Szymanski (2001:28), ao citar o pesquisador Murphy e colaboradores definem vulnerabilidade como a ‘suscetibilidade à deteriorização de funcionamento diante de stress’. Nesse sentido, a vulnerabilidade se associa às diferenças individuais e às formas de lidar com elas associadas às dificuldades ambientais. Dessa forma, reconheceu-se a complexa interação, entre a predisposição individual à vulnerabilidade, o ambiente vivenciado e a presença/ausência de estrutura social.
De acordo com Ayres (1999), Mann e sua equipe, buscando articular os aspectos envolvidos na contaminação pelo HIV, estabeleceram uma classificação de vulnerabilidade baseada em três eixos: social, programático ou institucional e individual como os principais determinantes da infecção pelo HIV de pessoas, grupos ou nações.
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O EIXO SOCIAL INCLUI: 
  • Condições sociais e econômicas, 
  • Acesso à informação, 
  • Acesso à educação, 
  • Acesso à assistência social,
  • Acesso à saúde, 
  • A garantia de respeito aos direitos humanos,
  • A situação sócio-política e cultural do indivíduo. 

O eixo programático ou institucional associa-se a programas voltados especificamente para a prevenção, controle e assistência aos portadores de HIV/aids.
O eixo individual refere-se ao acesso a recursos que possibilitam a adoção de comportamentos seguros ou, ao contrário, que possibilitem a infecção pelo HIV. Este último eixo está intrinsecamente relacionado com os eixos social e programático. Deste modo, foi possível ultrapassar a visão de que o comportamento seguro em relação à aids dependia apenas de ações individuais. Associados à pobreza, outros fatores como as mudanças provocadas pelo momento de transição entre a adolescência e a vida adulta contribuem para potencializar uma maior suscetibilidade do jovem ao risco.
Pessoas nesta faixa de idade são naturalmente vulneráveis pelas características intrínsecas à idade. 
Entre elas estão
  • Mudanças físicas, 
  • Período considerado intenso pelos desafios, 
  • Descobertas e oportunidades que se apresentam, 
  • Conflito diante da construção da identidade (descobrir quem é, o quer ser, encontrar o seu lugar no mundo), 
  • Momento de transitoriedade, marcado pelo fato de não se ser mais criança, mas ainda não ser adulto; sentimento de invulnerabilidade perante à morte.

No entanto, é importante observar que tais características assumem diferentes configurações quando contrastadas com as condições sociais, econômicas e culturais vivenciadas pelos jovens. Estas condições são determinadas em certa medida pelo ambiente no qual estão inseridos, pelo acesso a políticas públicas de lazer, educação, projetos sócio-educativos, valores religiosos e familiares socializados, pela condição econômica de seus responsáveis e pelo contexto social que permite ao jovem uma maior ou menor suscetibilidade aos riscos, entre eles, o risco da violência.
Fontes:
[1] – Mann J, Tarantola DJM, Netter T. Como avaliar a vulnerabilidade à infeção pelo HIV e AIDS. In: Parker R. A AIDS no mundo. Rio de Janeiro: Relume Dumará; 1993. p. 276-300.
[2] – Ayres JRCM, França Junior I, Calazans G, Salletti H. Vulnerabilidade e prevenção em tempos de Aids. In: Barbosa R, Parker R, organizadores. Sexualidade pelo avesso: direitos, identidades e poder. Rio de Janeiro: Relume Dumará; 1999. p. 50-71.
[3] -    JOVENS NO CONTEXTO CONTEMPORÂNEO: VULNERABILIDADE, RISCO E VIOLÊNCIA – Maria Ângela Silveira Paulilo * Marília Gonçalves Dal Bello ** * Doutora em Serviço Social-PUC-SP, docente do curso de mestrado em Serviço Social e Política Social da Universidade Estadual de Londrina. Orientadora.
** Mestranda em Serviço Social e Política Social da UEL. Bolsista da CAPES
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Fonte: http://www.radiowanteds.com.br/teste/?p=3718
       

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